Portal da Transparência do DF: o intervalo entre empenho e pagamento que impede auditar publicidade
Entre janeiro e abril de 2026, o Governo do Distrito Federal empenhou R$ 89,4 milhões em contratos classificados como publicidade e comunicação institucional. No Portal da Transparência local, apenas 61% desses empenhos exibem data de pagamento — o restante aparece como "em execução" sem detalhamento de parcelas.
Brasília concentra repartições públicas, mas também um mercado robusto de comunicação institucional. Quando a pauta é gasto com publicidade no GDF, jornalistas de dados esbarram no mesmo obstáculo: o portal mostra o contrato e o empenho, mas nem sempre a liquidação e o pagamento com a granularidade necessária para auditar o que foi veiculado.
Selecionamos dez contratos acima de R$ 2 milhões cada, firmados entre 2024 e 2026, e reconstruímos a trilha documental: número do processo, empresa contratada, valor total, empenhos mensais e notas fiscais quando disponíveis. Em quatro contratos, notas fiscais não estavam anexadas ao processo aberto no portal — apenas o valor empenhado.
O que a Controladoria respondeu
A Controladoria-Geral do DF informou, em resposta a pedido de acesso protocolado em maio, que "pagamentos podem aparecer com defasagem de até 45 dias em razão de integração com sistemas legados". O prazo não está publicado em norma acessível no site da CGDF; foi informado apenas por e-mail.
Para dois contratos de mídia digital, a defasagem ultrapassou 70 dias entre empenho e primeira parcela paga visível no portal. Sem pagamento publicado, não é possível cruzar o período de veiculação com o calendário eleitoral ou com eventos de governo — cruzamento que a própria Lei de Acesso à Informação deveria facilitar.
“Transparência sem pagamento é vitrine. O cidadão vê que gastou, mas não quando nem em que canal.” — Servidor aposentado do Tribunal de Contas, entrevista em 8 de junho
Contratos sem detalhamento de peça
Três dos dez contratos analisados classificam o objeto como "serviços de comunicação digital" sem discriminar peças, canais ou métricas de entrega. O valor global aparece; o detalhamento está em anexos PDF escaneados sem OCR — ilegíveis para busca automatizada.
Protocolamos pedido de republicação em formato aberto (CSV ou planilha editável) para um desses contratos. A SEPLAG respondeu que "o formato PDF atende ao requisito legal de publicidade". A discussão sobre reutilização de dados ficou sem resposta direta.
Comparação com outros entes
O Portal da Transparência federal, apesar de suas limitações, costuma exibir pagamentos com mais regularidade para despesas acima de R$ 100 mil. Em amostra equivalente de dez contratos federais de comunicação, 80% tinham ao menos uma parcela paga visível no mesmo trimestre do empenho. A diferença metodológica impede conclusão definitiva sobre qual portal é "melhor", mas o contraste ilustra que o problema não é exclusivo do DF — embora aqui acompanhemos de perto por ser a sede da cobertura.
Próximos passos da apuração
Vilela protocolou na CLDF requerimento pedindo cronograma de integração entre sistemas de empenho e pagamento. Acompanhamos também processos no TCE-DF que citam três das empresas contratadas nesta amostra — relação que será explorada em texto futuro, se houver decisão pública.
Fontes: Portal da Transparência do DF (extração em 5/06/2026), CGDF (resposta PAI 2026-04412), contratos e empenhos consultados por número de processo, entrevistas.