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Congresso

Emendas após a reforma: o que mudou na superfície dos dados — e o que ainda não fecha

A Câmara dos Deputados inaugurou em março um painel de emendas individuais com campos que antes existiam apenas em planilhas internas. A novidade é real — mas um cruzamento com o Portal da Transparência e com extratos do Siafi mostra que rastrear o dinheiro do autor ao município beneficiado ainda exige trabalho manual que a decisão do STF pretendia eliminar.

Representação gráfica de documentos e emendas parlamentares
Ilustração: painéis de emendas e bases do Tesouro ainda não conversam em tempo real.

Quando o Supremo Tribunal Federal fixou parâmetros para a execução de emendas em 2024, a expectativa nas redações e em ONGs de transparência era de que o ciclo completo — indicação, empenho, liquidação, pagamento — ficasse visível em bases abertas. Dezoito meses depois, o cenário é de avanço parcial.

Para esta reportagem, extraímos 1.240 registros de emendas individuais publicados no novo painel da Câmara entre janeiro e março de 2026. Cruzamos cada registro com notas de empenho disponíveis no Portal da Transparência e com identificadores do Siafi quando o número da emenda aparecia. O resultado: em 34% dos casos, encontramos empenho sem data de pagamento; em 19%, o beneficiário final no portal não coincide com o município indicado na emenda; em 11%, o valor empenhado difere do valor autorizado em mais de 2% — diferença que pode ser explicada por cancelamentos parciais, mas que o painel não detalha.

O que o painel passou a mostrar

O painel centraliza autor, número da emenda, objeto resumido, valor e órgão executor. Isso já reduz o tempo de jornalistas que antes montavam essa tabela à mão a partir de PDFs no Diário da Câmara. Campos como CNPJ do favorecido e código IBGE do município passaram a ser obrigatórios no preenchimento — quando preenchidos.

Em amostra aleatória de 200 registros, 23 não tinham CNPJ no momento da extração, embora o campo conste como obrigatório. A assessoria da Câmara informou que "atrasos de sincronização com executores" explicariam a lacuna e que os dados seriam atualizados em até 15 dias. Três semanas depois do pedido de esclarecimento, 17 dos 23 registros continuavam sem CNPJ.

“A transparência melhorou no discurso. Na prática, ainda exporto cinco planilhas para responder uma pergunta simples: onde foi parar o dinheiro.” — Analista de ONG de controle social, entrevistado sob reserva

Intervalo entre empenho e pagamento

O intervalo mediano entre empenho e pagamento, quando ambas as datas existem, foi de 47 dias no primeiro trimestre. Para emendas de custeio em saúde, o prazo mediano subiu para 62 dias. Não há campo no painel da Câmara que indique pagamento — é preciso consultar o Portal da Transparência ou o Siafi.

Isso importa porque a cobertura jornalística costuma parar no empenho: “deputado destinou R$ X”. Sem pagamento, não se sabe se a obra começou, se o recurso voltou ao Tesouro ou se está retido por pendência documental no órgão executor.

Resposta das lideranças

A Mesa Diretora da Câmara enviou nota afirmando que o painel está em "fase de estabilização" e que integração automática com o Tesouro é "meta para o segundo semestre". O Ministério da Fazenda não respondeu em 20 dias úteis a perguntas sobre API unificada entre emendas e execução orçamentária.

A oposição protocolou requerimento de informação pedindo cronograma técnico da integração. O documento ainda não consta no sistema de tramitação aberta no momento desta publicação.

Como reproduzir a apuração

Publicamos a metodologia em linhas gerais: extração via painel de emendas em 4 de junho de 2026; cruzamento por número de emenda e CNPJ quando disponível; tolerância de 2% em divergência de valores. Pedidos de acesso complementares foram protocolados na Câmara (nº 2026-PAI-44821) e no Ministério da Fazenda (nº 2026-PAI-12093).

Fontes: Painel de Emendas Individuais da Câmara dos Deputados, Portal da Transparência do Governo Federal, notas de esclarecimento da Mesa Diretora (10/06/2026), entrevistas com analistas de transparência.